Depois de 27 anos, decidi passar o primeiro Dia dos Pais com o meu pai














Todo ano é assim: no Dia dos Pais, enquanto a maioria dos meus amigos posta fotos com o grande herói deles, eu uso as redes sociais para exaltar a minha mãe, a mulher que mais admiro no mundo e que deu o sangue para criar a mim e ao meu irmão da melhor maneira possível.
Mas a minha história começa muito antes de Instagrams e Facebooks da vida sequer pensarem em existir. E eu vou contá-la a vocês.
Meu nome é Isadora. Nasci em dezembro de 1991 e, poucos meses depois, meus pais, que estavam juntos havia sete anos, se separaram por motivos de... bom, digamos que meu pai não era a pessoa mais fiel do mundo. Ainda assim, três anos mais tarde, meu irmão veio ao mundo, fruto de uma recaída. Sabem como é, né?
O divórcio fez com que, além da minha mãe e do meu irmão, outra pessoa assumisse o protagonismo das lembranças da minha infância: minha avó materna, o amor da minha vida, a quem gosto de chamar de segunda mãe. Era ela quem cuidava de nós dois enquanto minha "mãe número 1" trabalhava para nos sustentar.
Vocês devem estar se perguntando: "Mas, ué, o que aconteceu com o seu pai?". Bom, sou muito grata por não ter feito parte da estatística que aponta mais de 5,5 milhões de crianças sem o nome do progenitor na certidão de nascimento. O meu não sumiu, não nos abandonou. Ele simplesmente não era presente em nossas vidas, tanto afetiva quanto financeiramente.
Desde que me entendo por gente, me lembro de vê-lo pouquíssimas vezes ao ano — uma ou duas visitas em dias aleatórios e outra no meu aniversário. E, admito, esses encontros não eram legais para mim, afinal, não dá para você resolver em um dia o que não fez nos outros 364, certo? Era como se um primo distante da família fosse até a minha casa e me chamasse de filha. Acabei criando, involuntariamente, uma resistência a ele.
E assim eu fui crescendo, sempre ao lado da minha "pãe", sempre longe do meu pai. Mas essa distância nunca foi um problema para mim. Nunca havia sofrido nem chorado por ele. Sabe aquela história de que não dá para sentir falta do que nunca se teve? Ela sempre disse muito sobre nós. Até que elas chegaram.

'Modernização' da relação

As redes sociais fizeram aquilo que eu não achava mais que fosse possível: me aproximaram, mesmo que virtualmente, do meu pai. O WhatsApp passou a ser o elo mais forte da nossa relação, e a cada vídeo engraçadinho, cada áudio, cada mensagem que ele me enviava... eu sentia como se o meu coração desse pequenos (e contidos) pulinhos de alegria. Isso se intensificou em 2018, ano que eu considero o mais importante na nossa história — para o bem e para o mal —, durante o qual devo ter conversado com meu pai umas 20 vezes. Parece pouco, só que, para mim, foi totalmente diferente de tudo o que já havia vivido. 
Mas, como eu disse, foi um ano importante tanto positiva quanto negativamente. Outubro chegou e, com ele, vieram as eleições presidenciais. Por conta de divergências de opiniões políticas, tivemos uma discussão, e eu fui bloqueada por ele no WhatsApp. Justo no WhatsApp, que era o fio que nos conectava. 

Isso, no entanto, não me abalou muito, porque eu sabia que dois meses depois meu aniversário chegaria, e ele nunca havia deixado de me dar os parabéns nessa data. "É temporário", pensei. E me enganei.
No dia 5 de dezembro completei mais uma primavera e não recebi nenhuma ligação ou mensagem dele. Apesar de ter me surpreendido com essa atitude, o que mais me chocou foi a forma como eu mesma reagi a isso. Nem minha mãe entendia como eu havia ficado daquela maneira. Foi então que eu percebi que os 27 anos de distância pesaram muito mais do que eu imaginava.

Divisor de águas

Foi uma avalanche de sentimentos. Passei os três dias seguintes ao meu aniversário chorando muito. Senti raiva, tristeza, revolta. Não era possível que, depois de tudo o que ele já havia feito — ou deixado de fazer —, ele me excluiria da vida dele de novo! Não conseguia me conformar.
Mas, hoje, vejo que eu precisava passar por isso para perceber a importância que meu pai tinha na minha vida. E eu percebi.
Cerca de três meses depois, ele começou a ensaiar uma reconciliação. Me desbloqueou no WhatsApp e, aos poucos, os vídeos engraçados voltaram a apitar no meu celular. Mas, desta vez, algo estava diferente: eu mesma.

Uma nova percepção para uma nova história

Nos últimos cinco anos, mais ou menos, meu pai chorou todas as vezes em que me viu. Nesses momentos, eu sentia que ele carregava muitos arrependimentos, apesar disso, nunca vi um esforço real dele para mudar as coisas. Mas, hoje, quem decidiu mudar fui eu.
Não quero generalizar o que passei a tantos outros casos de abandono paterno. Sei que muitas mulheres e filhos passaram por coisas muito piores. A mim nunca faltou nada, nem comida na mesa, nem afeto. Mas faltou esforço de ambos. Se a gente não pode controlar as atitudes dos outros, por que não fazer o que está ao nosso alcance?
Cada caso é um caso, mas, se de alguma maneira alguém se identificou com a minha história, fica aqui a minha mensagem: tente. Se for muito difícil, tente um passo de cada vez, uma atitude de cada vez, mesmo que o caminho seja longo. O meu percorreu quase 28 anos, mas agora me sinto preparada para tentar fazer a minha parte e, quem sabe, escrever uma nova história.
Ele ainda não sabe, mas hoje, dia 11 de agosto de 2019, estou saindo de casa para passar o meu primeiro Dia dos Pais com o meu pai. 

Fonte: R7

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