Médico da UFSCar não descarta 3ª onda da Covid-19






Todo cuidado é pouco e a pandemia da Covid-19 não foi superada. Muito pelo contrário...


Este é o alerta do médico epidemiologista e professor no curso de Medicina da UFSCar, Bernardino Geraldo Alves Souto que não descartou uma possível terceira onda da Covid-19 no Brasil no segundo semestre deste ano.


Em entrevista ao São Carlos Agora, o epidemiologista salientou que a variante (mutação do SARS-CoV-2) Delta está crescendo assustadoramente em todo o país.


Mais resistente, esta variante é mais transmissível e causa inclusive a reinfecção das pessoas que já tiveram a infecção e a probabilidade de sequelas também aumenta.


Souto alertou que a flexibilização não deve ocorrer da forma como vem sendo feito e os protocolos de segurança devem ser mantidos e se possível, intensificado.


A ENTREVISTA


São Carlos Agora - Com a presença das variantes Delta e Gama existe a perspectiva de uma terceira onda da Covid-19 no Brasil?


Bernardino Geraldo Alves Souto - Sim. A variante Delta vem se mostrando mais transmissível que a Gama e está crescendo em prevalência mesmo nos países onde a Gama é majoritária. Á medida que a prevalência da Delta avança, vem caindo a prevalência da Gama. Como a Delta é mais resistente aos anticorpos produzidos por infecções prévias causadas por outras variantes e também aos anticorpos produzidos pelas vacinas, poderá fazer nova onda epidêmica, inclusive por meio de reinfecções em pessoas que já tiveram Covid ou afetando pessoas já vacinadas. A vantagem dos vacinados com duas doses é que a mortalidade é bem menor, embora possam ainda adoecer e ter sequelas. Nesse sentido, torna-se muito importante o uso de máscara, distanciamento físico, testagem e isolamento em massa e todas as demais medidas preventivas, mesmo em pessoas vacinadas ou que já tiveram Covid. Junto com isto, acelerar a cobertura vacinal com duas doses na população.


SCA - 2) Os governadores Eduardo Paes (RJ) e João Doria (SP) promovem gradativamente o afrouxamento de medidas restritivas. Isso é o momento?


Bernardino Souto - Esta medida de afrouxamento aumenta o risco de uma nova onda epidêmica pela variante Delta e o potencial de gravidade desta nova onda.


SCA - Ocorre no país, a vacinação em massa. Isso não ajuda a controlar a propagação da pandemia?


Bernardino Souto - A vacinação ajuda muito, especialmente evitando casos graves e mortes. O problema é que a cobertura vacinal no Brasil com duas doses está muito baixa e crescendo de modo lento enquanto a velocidade de propagação da variante Delta está muito acelerada. Vacinação com uma só dose ajuda, mas, não é suficiente para conter a nova onda pela variante Delta. Mesmo nos países com elevada cobertura vacinal com duas doses, a variante Delta tem feito novas ondas epidêmicas, embora com menos mortes. Contudo, nos países com baixa cobertura vacinal com duas doses onde já circula a variante Delta em alta prevalência tem havido crescimento importante tanto de casos quanto de mortes por esta variante.


SCA - Tendo em vista a confiança dos políticos e da população, uma terceira onda seria ainda mais devastadora em relação a segunda que ocorreu no início deste ano?


Bernardino Souto - Corremos este risco. Nossa cobertura vacinal com duas doses ainda está muito baixa, a prevalência da variante Delta vem crescendo de modo acelerado e a negligência às medidas preventivas parece generalizada. Grande parte das pessoas e governantes estão tratando a epidemia como controlada e liberando tudo. A situação em que estamos hoje ainda é muito grave, com elevado número de casos e de mortes diários, acrescido da ameaça posta pela variante Delta.


SCA - Sendo um profissional da área de saúde, na sua opinião, quais seriam as melhores formas de orientar a população de uma maneira geral?


Bernardino Souto - Informar sobre a gravidade da situação e da ameaça representada pela variante Delta e do equívoco dos governantes em negligenciar tudo isto propondo medidas de afrouxamento sem acelerar suficientemente a cobertura vacinal da população ou aplicar outras medidas preventivas. É importante que as pessoas usem máscara sistematicamente, mantenham distanciamento físico, só saiam de casa em caso de absoluta necessidade e endureçam as medidas protetivas individuais. É importante que o poder público faça testagem em massa com garantia de efetivo isolamento de infectados, distribua máscaras e exija o uso, insista em medidas restritivas, dê suporte às pessoas e ao comércio para cumprirem tais medidas e vacine o máximo de pessoas com duas doses no menor tempo possível, entre outras coisas. Já morreu gente demais e já tem gente demais com sequelas da Covid; ainda poderão morrer e ficar com sequelas muitas outras se continuarmos negligenciando as medidas indicadas para controlar a pandemia no país.


SCA - Essas variantes (Delta e Gamma) são mais letais? Por serem uma variação do coronavírus original, o que as diferem?


Bernardino Souto - As mutações até agora têm levado o vírus a ficar mais transmissível, mais resistente aos anticorpos adquiridos pelo adoecimento prévio e mais resistentes ao efeito das vacinas. Há relatos sobre a ocorrência de casos mais graves da doença e de reinfecções causadas por algumas das variantes de surgimento mais recente, especialmente a Delta. Também tem sido descrita maior proporção de jovens entre os afetados pelas novas variantes, inclusive com crescimento da proporção de casos graves e mortes entre pessoas mais jovens, especialmente entre não vacinados com duas doses.


SCA - As variantes em questão, segundo as autoridades sanitárias, estão em centenas de municípios pelo país. O senhor acredita que os responsáveis não estão atentos para o perigo que elas podem causar.


Bernardino Souto - O Brasil, de um modo geral, vem sendo negligente com a pandemia desde seu início. A desatenção em relação ao que significa a Covid-19 e em relação às medidas indicadas para combatê-la tem sido a prática no país desde o começo e parece que está pior agora diante da ameaça posta especialmente pela variante Delta. Em um momento em que a epidemia ainda mata mais de 800 pessoas por dia e circula uma variante potencialmente perigosa, o Brasil trata a situação como se a epidemia já estivesse acabado. Esta negligência não só colabora para a gravidade da situação e para o grande acúmulo de mortos e sequelados pela Covid como também ajuda desenvolver novas variantes do vírus. Quanto mais intensamente e por mais tempo a epidemia fica descontrolada, transmitindo muito o vírus entre as pessoas, maior a chance dele sofrer mutações e dificultar ainda mais o controle da própria pandemia. A melhor maneira de evitar novas mutações é controlando a pandemia no sentido de reduzir ao mínimo a transmissão da doença, o que é impossível de ser alcançado em meio a afrouxamentos e negligência em relação às medidas preventivas.


SCA - O senhor acredita que os políticos estão cometendo erros sucessivos?


Bernardino Souto - Em parte há erros, mas, suponho que não seja só isso. Erro é quando se equivoca involuntariamente. Muitas das práticas governamentais não parecem equivocadas, mas, intencionais. Intenção de priorizar os interesses econômicos sobre as necessidades sociais e o direito das pessoas, por exemplo. Muitos governantes têm negado e recusado deliberadamente as orientações técnicas e científicas e isto não é erro; é projeto político intencional.


SCA - Sendo um estudioso da doença, o SARS-CoV-2 continua a matar somente idosos e pessoas com comorbidades?


Bernardino Souto - Não. A Covid-19 pode matar qualquer um, embora, como qualquer doença, mata os mais fragilizados biologicamente e socialmente. Recentemente vem crescendo a mortalidade proporcional por Covid entre pessoas mais jovens. Ao que tudo indica, a diferença de cobertura vacinal por faixa etária, a circulação da variante Delta e a maior exposição de jovens ao risco de transmissão têm colaborado para isto.


SCA - Essas variantes atingem pessoas mais jovens e consideradas sadias? Por que?


Bernardino Souto - Sim. Os jovens têm se exposto mais por meio de suas atividades na sociedade, por meio de aglomerações, etc. Junto a isso, as novas variantes são mais transmissíveis e a cobertura vacinal com duas doses em jovens é menor.


Fonte: São Carlos Agora