Lidar com a perda de um ente querido nunca é uma tarefa fácil. Além de doloroso, o processo de luto pode ser demorado, desencadear a depressão e mais uma série de problemas emocionais complicados. Tanto é que, lamentavelmente, muitas pessoas não conseguem superar a dor, o que não é o caso da analista comportamental Gislaine Carvalho, de 58 anos, moradora de Americana, que perdeu o marido há cerca de três anos.
Recuperada de um período difícil da vida, ela conta que apesar da ausência do amor de sua vida, acabou encontrando na cachorrinha da família o apoio que precisava para retomar sua trajetória.
Digna de um roteiro de filme, sua história com a dócil Filó, uma linda fêmea pastor de shetland – raça conhecida por ser muito companheira, alegre, sensível e extremamente inteligente -, teve um começo muito feliz, o meio bem triste e um fim marcado por uma bela lição de superação, amizade e lealdade.
Antes de saber os detalhes dessa parceria entre a mulher e sua pet vamos voltar ao passado para conhecer a história de amor de Gislaine com o médico Walter Santana de Carvalho.
Grande encontro
Visivelmente emocionada, a analista conta que eles se conheceram já maduros, sendo ela mãe de duas jovens e ele de um casal, todos adultos, em fase de desbravar as conquistas profissionais. Em pouco tempo, eles começaram a namorar, se casaram e, assim, compartilharam uma vida comum durante 12 anos.
“Quanto nos conhecemos foi uma loucura. Acredito que tenha sido um encontro de almas porque a sensação que tínhamos era de que já nos conhecíamos. O Walter era perfeito para mim, um verdadeiro príncipe encantado. Ele era lindo, elegante, charmoso, educado, dócil, enfim, tudo que uma mulher poderia querer”, diz.
Além da parte pessoal, Gislaine faz questão de ressaltar o quanto o marido também era dedicado à profissão. “Sempre digo que ele nasceu para ser médico porque não tratava as pessoas por dinheiro, ele atendia por amor.
Para se ter uma ideia, depois que ele se foi, recebi por ele muitas homenagens póstumas. Para o Walter, a medicina era um verdadeiro sacerdócio. Ele amava muito a profissão, tanto que, curiosamente, teve um infarto e um AVC após coordenar uma cirurgia de mais de 6 horas, seguido de um plantão”, lembra ela.
Chegada da Filó
Mesmo com a vida agitada, alguns meses antes da morte do marido, Gislaine conta que Walter manifestou a vontade de ter um cachorro, diferente dela, que até então nunca tinha passado pela experiência de conviver com um pet, nem mesmo durante a infância.
“Ele falava que como ainda não tínhamos netos, a casa estava muito vazia e precisávamos de algo para nos dedicar. No começo, fui resistente, mas ele era muito amoroso, teve uma criação muito afetiva e acabou me convencendo quando me mostrou a foto da Filó. Ah, fiquei apaixonada, e em pouco tempo ela já estava em casa, trazendo alegria e mudando nossas vidas”.
Ela se recorda que durante o tempo em que viveram juntos, Walter e Filó eram inseparáveis. “Um grude muito grande. Ela esperava ele chegar do consultório na porta de casa. Quando entrava, colocava a maleta no chão e ficava um bom tempo brincando com ela. Só íamos almoçar em lugares que aceitassem a presença dela. Vivíamos em paz, mas a Filó trouxe algo a mais”, conta.
Doença e morte
Quando o médico adoeceu, a alegria se foi. Já nos primeiros dias dele no hospital, Filó também adoeceu. “Fizemos todos os exames nela. Fisiologicamente, não tinha nada. O mal dela era emocional”, diz Gislaine.
Após 50 dias de UTI, Walter ainda voltou para casa, mas completamente debilitado. Durante os quase seis meses que ele sobreviveu, a cachorrinha não saía debaixo da cama hospitalar instalada no quarto. “Era como se ela estivesse vigiando ele, como um anjo da guarda. Ela sofreu tudo o que eu sofri”, reflete.
Hora de seguir em frente. Após meses de sofrimento, apatia e depressão, a virada de chave da analista comportamental e sua cachorrinha foi quando a pet caiu doente a ponto de perder os pelos.
“Nosso luto foi muito difícil. Ela chegou a ficar sem andar. Um dia a Filó acordou tão ruim que precisei levá-la ao veterinário e foi aí que tive um choque. O profissional me avisou que se eu não melhorasse a Filó iria morrer, porque ela estava absorvendo toda a minha dor. Na hora, eu fiquei em pânico porque ela era a melhor coisa que o Walter havia me deixado. Por ela, me senti obrigada a criar forças para levantar”, lembra.
“No começo eu quase me arrastava para sair de casa para caminhar. Eu andava e chorava. Com o tempo, fui encontrando o prazer na atividade física e aos poucos nós duas fomos melhorando. Hoje, diante de tudo que passamos, retomamos a vida e estamos seguindo em frente”, reflete Gislaine.
E para as pessoas que pensam sobre adotar um pet, ela tem conhecimento para dar sua opinião pessoal e profissional. “Eles são fundamentais para melhorar a vida das pessoas, os relacionamentos e tudo ao redor. Trazem afeto porque são puro amor. É impossível não reagir na companhia de um pet. Se não fosse a Filó, eu talvez não estivesse mais aqui. Ela é minha maior herança, um presente que o Walter deixou para mim”, finaliza.
Fonte: O LIBERAL


